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Brasil x Uruguai, muito além da Copa de 1950

Confrontos entre as duas equipes sempre remetem à final perdida pela seleção brasileira no Maracanã. Mas a história e os grandes jogos entre ambos mostram muito mais do que aquela fatídica partida
Publicado por Glauco Faria, para a RBA
09:43
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Rafael Ribeiro/CBF
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Em 2016, ainda com Dunga no comando, a seleção brasileira ficou no 2 a 2 com o Uruguai, na Arena Pernambuco; Suárez, à direita, está suspenso por cartão amarelo e não joga hoje

São Paulo – As seleções do Brasil e do Uruguai se enfrentam na noite desta quinta-feira (23), em Montevidéu, às 20h, em um duelo que reúne as duas melhores equipes sul-americanas das Eliminatórias. Os brasileiros lideram com 27 pontos, enquanto os vizinhos têm 23, três à frente de Equador e Chile, e a quatro de distância da Argentina.

Toda vez que os dois tradicionais rivais se enfrentam, a pauta se dirige inevitavelmente a um fato ocorrido há quase sete décadas: o Maracanazo, quando a seleção brasileira, ainda sem títulos mundiais e precisando apenas de um empate para levantar sua primeira Copa, perdeu de virada para a Celeste Olímpica, jogando em casa no estádio que havia sido construído para sediar a grande final daquele torneio.

“Seguramente se invoca (a lembrança da Copa de 1950) muito mais no Uruguai do que no Brasil. Por sorte, nesses últimos 67 anos as duas seleções se enfrentaram muitas vezes, por isso a recordação de 1950, ainda que importante para a história de ambos os países, vai ficando cada vez mais distante”, avalia o jornalista Andrés Reyes, autor de El propio fútbol uruguayo. “Afortunadamente, as duas seleções se encontram em um bom momento, o que faz com que o jogo de quinta-feira tenha um valor em si mesmo, independentemente do passado. Oxalá seja uma boa partida”, torce.

Contudo, a rica história dos confrontos entre os dois times tem muito mais do que a decisão daquele Mundial.  Em 74 encontros, o Brasil levou a melhor 34 vezes, perdeu 20 e empatou outras 20, mas na casa do vizinho a vantagem é azul: em 24 partidas, são 11 vitórias uruguaias, nove empates e quatro triunfos brasileiros.

Entre os grandes embates está a semifinal da Copa de 1970, quando as duas seleções voltaram a se enfrentar em uma edição do Mundial após o Maracanazo. E aquele time que muitos consideram o maior de todos os tempos sofreu diante de um Uruguai que saiu na frente com Luis Cubilla, aos 18 do primeiro tempo. O empate veio com uma “subversão” promovida pelos próprios jogadores. O meia Gérson, bem marcado na partida, combinou com o volante Clodoaldo para ambos trocarem de posicionamento em campo. A tática deu certo e o então jovem jogador do Santos empatou aos 43 da etapa inicial. Com o domínio da partida na etapa final, os brasileiros viraram com Jairzinho, aos 30, e consolidaram a vitória com Rivelino, aos 43. Aquele jogo também ficou marcado pelo antológico lance em que Pelé deu um drible de corpo fantástico no goleiro Mazurkiewicz, mas acabou finalizando para fora, com o gol vazio.

Outra partidaça entre ambos aconteceu em janeiro de 1981 na chamada Copa de Ouro, mais conhecida como Mundialito, por reunir todos os campeões do mundo até então, com exceção da Inglaterra, substituída pela Holanda. Disputada no estádio Centenário, na capital uruguaia, a peleja teve o primeiro gol anotado por Jorge Barrios, aos 15 minutos da primeira etapa, com  Sócrates empatando aos 16 do segundo tempo para os comandados de Telê Santana. Mas Victorino deu mais uma vez a vantagem ao Uruguai aos 35, definindo o placar da partida. Coube ao goleiro e capitão Rodolfo Rodríguez levantar o caneco.

Esse encontro ainda foi marcado por um fato extra-futebol. A ditadura militar uruguaia havia sofrido uma dura derrota em um plebiscito no qual buscava se legitimar, ocasião em que a população rejeitou a abolição da Constituição de 1967 com 57% de “não”. No entanto, o povo, amedrontado, não comemorou nas ruas o resultado, reservando tal momento para o momento da celebração da vitória sobre o Brasil. No estádio, os uruguaios vibravam entoando o cântico “Se va acabar, se va acabar, la dictadura militar”.

Romário seria o protagonista de um jogo decisivo no Maracanã, em 1993. O Brasil precisava superar os uruguaios em sua última partida nas eliminatórias do Mundial de 1994 para assegurar sua classificação, e Parreira, técnico da seleção, havia dado um “castigo” no atacante Romário pelo fato de o baixinho ter pedido dispensa de um amistoso contra a Alemanha um ano antes. Cedendo à pressão popular, cada vez maior devido à campanha mediana da equipe na competição, o treinador convocou o então atacante do Barcelona, que marcou os dois gols da vitória brasileira.

O jogo de hoje 

A seleção brasileira vai a campo com um desfalque importante para Tite. O atacante Gabriel Jesus, do Manchester City, está em recuperação após sofrer uma fratura no dedo mínimo do pé direito. Já os uruguaios não poderão contar com Luis Suárez, companheiro de Neymar no Barcelona.

De acordo com Reyes, a seleção celeste deve saber suprir a ausência de seu principal astro.”O Uruguai engrenou nas Eliminatórias sem Suárez, e ganhou três partidas em quatro. É verdade que Suárez, sozinho, consegue complicar qualquer defesa, mas o Uruguai já demonstrou que pode se armar para ser competitivo sem sua presença”, avalia. “É uma equipe solidária, consciente de suas limitações e de seus pontos fortes. Há muito tempo jogam juntos e o grupo é muito unido”, ressalta.

Para o jornalista uruguaio, a imagem da seleção brasileira no país vizinho não ficou abalada por conta do histórico 7 a 1 sofridos na semifinal da Copa de 2014. “Vemos que desde a chegada do novo treinador (Tite), a seleção brasileira melhorou muito seu rendimento. A Copa do Mundo ficou para trás, não vemos hoje a equipe que perdeu de 7 a 1 para a Alemanha, mas sim a que acumulou seis vitórias consecutivas. Será um rival duríssimo.”

O duelo também vale muito para o técnico Óscar Tabarez. Há 11 anos no comando da equipe uruguaia, ele completa 168 partidas à frente do time, tornando-se o treinador com o maior número de jogos por uma única seleção, deixando para trás o alemão Sepp Herberger. No entanto, em cinco confrontos contra a seleção brasileira, ele ainda não venceu nenhum.